O Chamado

Segunda-feira, primeiros dias de primavera, 7:30hs bate o despertador. Hum, mais cinco minutinhos, não vai fazer diferença. Snooze.

7:45hs. Estou no limite. Melhor eu levantar porque até vestir os meninos, organizar o café e sair… vou chegar atrasada.

Já com alguma dificuldade, me viro para a esquerda na cama. Ai, essa barriga já está começando a pesar. Será que hoje acordei menos inchada? Putz, acho que vai fazer calor, preciso lembrar de beber mais água. Cochilo.

7:50hs. – Amor, que horas são? – vem a voz do outro lado da cama. Nossa, tenho que levantar já! – Dez para as oito, respondo.

Levanto com uma mistura de preguiça e dificuldade, vou até o banheiro e me olho no espelho. É, estou sem muita olheira, acho que dormi bem. Enquanto faço um longo xixi, confiro as principais notícias do dia pelo celular. Nada de novo na política. Parece que o segundo turno já está definido. Uma olhadinha no Instagram. Vejo uma foto linda daquela amiga que se mudou para os EUA, com os dois filhos de sorrisos perfeitos, em frente a jaula da girafa no zoo de Cincinatti. Impressionante como ela parece sempre conseguir dar conta de tudo e nunca perder a cabeça. Tá magrinha, né? Suspiro. Preciso ser uma mãe mais plácida… Vou ser uma mãe mais plácida, adotar um novo ritmo para os meus dias, para a minha vida…

7:56hs. Os meninos certamente vão chegar atrasados. De novo. Me olho no espelho, levanto a camisola. A barriga parece maior, o quadril não tanto. Seria otimismo ou ilusão de ótica?

Roupa de ginástica e em dois minutos já estou vestida, pronta para ir para o clube. Enquanto os meninos fazem judô, eu faço a minha caminhada na esteira, vai ajudar na circulação. E quando eles forem para o futebol, eu termino mais um capítulo do meu livro do clube de leitura que, para variar, também está atrasado. É.. acho que vai dar tudo certo.

– Ber, vai acordando o Henrique que eu vou chamar o Antonio? Já trago a roupa do judo. Esse menino precisa parar de passar para a minha cama no meio da noite. Já tem seis anos!

Entro no quarto do meu filho mais velho, sento na beirada da cama e começo a dar beijinhos para acordá-lo. Me dou conta que não tenho lembrança de ser acordada assim na infância. A minha mãe dormia até mais tarde e sempre acordava depois que eu já tinha saído para o ballet, ainda que o carinho e o amor fossem constantes nas outras horas do dia.

– Tom, vamos acordar, meu amor? Tá na hora, senão vocês vão chegar atrasados para o judo.

O Antonio se vira na cama, ainda com os olhos fechados mas já mostrando estar consciente.

– Filho, vou trazer a tua roupa do judo, tá? Você vai se vestindo enquanto a mãe prepara o café. O que você quer de café?

Ele responde ainda com os olhos fechados:

– Waffle com doce de leite.

– Não sei se tem waffle. Se não tiver, pode ser bisnaguinha?

Antonio diz que sim com a cabeça mas ainda de olhos fechados e se vira de lado.

Como é lindo esse meu filho. Adoro beijar ele assim de manhã e sentir o seu bafinho. Engraçado como ele dorme exatamente na mesma posição que dormia na maternidade…

Vou até o armário dos meninos e abro a última gaveta. Nada dos quimonos de judo. Procuro por eles em outra parte do armário e me lembro que os meninos foram embora da aula passada de carona com os primos. Deve ter ficado no carro da Vanessa. Aí que ódio! 8:06hs. Surto. Nossa! Eles não chegarão a tempo nem a pau! Como ninguém viu que as roupas do judo não estavam no armário?! A última aula foi na semana passada! Claro que a Silena não as procurou para lavar de uma semana para a outra… Eu e essa minha desorganzação sem fim. Preciso aprender a ser mais organizada.

– Antonio, você sabe onde ficaram os quimonos de judo?

Sentado na cama e coçando o olho, ele me responde:

– Não mãe. Não tá na gaveta?

– Não, meu filho, não tá… Faz assim: vai de roupa de futebol hoje para o judo que a mãe vai ver onde os quimonos foram parar.

Pego a roupa para o Henrique que ainda dormia na minha cama.

– Ber, coloca uniforme de futebol no Henrique porque não estou achando os quimonos deles.

– Mas onde ficaram? Qual foi a última vez que usaram?

Deixo o Bernardo falando sozinho porque preciso fazer mais um xixi. Essa baixinha tá crescendo e apertando a minha bexiga cada vez mais!

8:10hs. Já vi que meu café da manhã vai ser a jato. Nada me deixa de mais mau humor.

            Mando mensagem para a minha prima perguntando se, por acaso, as mochilas com os quimonos não ficaram no carro dela, enquanto desço para procurá-las no porta-malas do meu carro. Óbvio que não estão…

            Arrumo o café da manhã dos meninos. O Henrique precisa aprender a comer mais coisas… Cereais, uma torradinha. Como pode viver só de pão de queijo e uva? Quando ele era bebê comia todos os tipos de frutas. Onde eu errei?

8:15hs começam os gritos: – Antonio, Henrique, venham tomar café. Já levantaram? Rápido que vamos nos atrasar!

Os meninos descem, ligam a tv e começam a tomar o seu café. Procuro o queijo para fazer uma tapioca. Ai droga, acabou! Preciso passar na panificadora hoje sem falta.

            Finalmente consigo a minha primeira vitória da manhã: coordenar a preparação do café com leite com torrada de um pão já meio velho. Porque café da manhã para mim tem que ser assim: café com leite e pão quentinhos, ao mesmo tempo. Nada me irrita mais quando um deles esfria. Será que sou normal?

            8:25hs. Finalmente sento na mesa para tomar meu café. É, talvez eles não cheguem tão atrasados hoje. Se saírmos até 8:40hs acho que dá tempo.

            Dou a primeira dentada na torrada com um pouco de manteiga, e quando estou levando a xícara a boca para o primeiro gole de café, o Henrique me interrompe:

–  Mãe, vem mãe!

–  O que foi Henrique?

–  Vem aqui mãe. Eu quero te mostrar uma coisa.

–  Filho, a mãe acabou de sentar aqui para tomar café. Deixa a mãe tomar o cafezinho dela tranquila. A gente vai se atrasar.

–  Vem mãe. É IMPORTANTE!

Diante daquele “é importante” decido atender, querendo evitar toda uma nova carga de culpa por não ter dado atenção para o meu filho, mas já pensando no café que vou tomar frio.

–  Vem mãe. Aqui fora. Preciso te mostrar uma coisa.

Ele precisava. E era realmente importante. Chegando no jardim ele aponta para um ninho, encaixadinho numa árvore, onde uma mãe passarinha cuidava da sua cria que acabara de sair do ovo.

–  Olha mãe, que lindo! É a primavera, né?

Sinto um nó na gargante e uma gratidão profunda por meu filho ter me salvado de mais um dia que eu comecei existindo e não vivendo. A cena me comove instantaneamente, e me mostra que a maternidade é um chamado. Um chamado ao que É IMPORTANTE, àquilo que nos torna mais humanos, mais verdadeiros, mais presentes.

Sabemos que as demandas do dia-a-dia nos forçam a manter as engrenagens da rotina rodando. E nesse rolo compressor vemos as nossas horas desaparecerem, levando com elas todas as oportunidades de termos efetivamente vivido. É verdade, nem sempre dá para contemplar o nascimento de um passarinho, o desabrochar de uma flor ou um pão caseiro crescer no forno. Mas é necessário. É necessário que não deixemos de nos encantar com o mundo e perceber o que nos rodeia com o olhar de uma criança. É essencial que a gente ache brechas nos nossos dias para fazer caber um pouco de vida, sob o risco de, no futuro, olharmos para traz e nos darmos conta de que ignoramos o chamado da primavera.

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